{"id":1422,"date":"2023-08-11T17:54:58","date_gmt":"2023-08-11T20:54:58","guid":{"rendered":"https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/?p=1422"},"modified":"2023-08-11T19:37:50","modified_gmt":"2023-08-11T22:37:50","slug":"cartas-de-manet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/cartas-de-manet\/","title":{"rendered":"Cartas de Manet"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1424\" src=\"https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/banners-ercolano06.jpg\" alt=\"\" width=\"1080\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/banners-ercolano06.jpg 1080w, https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/banners-ercolano06-1024x616.jpg 1024w, https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/banners-ercolano06-768x462.jpg 768w, https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/banners-ercolano06-640x385.jpg 640w, https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/banners-ercolano06-400x241.jpg 400w, https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2023\/08\/banners-ercolano06-600x361.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/p>\n<p>No post de hoje, trazemos novidades sobre nosso lan\u00e7amento de setembro: <em>Manet no Rio<\/em>, compila\u00e7\u00e3o das cartas do ent\u00e3o adolescente \u00c9douard Manet durante sua viagem ao Rio de Janeiro entre 1848-1849. Nossa edi\u00e7\u00e3o, traduzida por R\u00e9gis Mikail, conta com pref\u00e1cio de Alecsandra Matias e posf\u00e1cio de Felipe Martinez.<\/p>\n<p>Hoje considerado precursor da pintura moderna, Manet escreveu cartas \u00e0 sua fam\u00edlia que nos mostram um dado menos conhecido: aos dezessete anos, sonhava em fazer carreira na marinha. Nessas cartas, ele relata suas aventuras a bordo do Havre e Guadeloupe e descreve suas impress\u00f5es sobre o Rio de Janeiro, seus habitantes, costumes e os horrores da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Selecionamos o ensaio de Jorge Coli \u201cCartas de Manet\u201d, extra\u00eddo de <em>O Corpo da liberdade: reflex\u00f5es sobre a pintura do s\u00e9culo XIX<\/em> (SESI-SP Editora, 2018, pp. 193-204), cuja reprodu\u00e7\u00e3o nos foi gentilmente cedida pelo autor. Com sua vis\u00e3o t\u00e3o ampla quanto perspicaz, Jorge Coli esmi\u00fa\u00e7a a rela\u00e7\u00e3o entre a criatividade e a liberdade na produ\u00e7\u00e3o do artista.<\/p>\n<p>Se, ao longo do s\u00e9culo XIX, as correspond\u00eancias desempenham um papel revelador com seus lirismos, excessos e contradi\u00e7\u00f5es, Coli prop\u00f5e uma an\u00e1lise inovadora das cartas de Manet, distintas da literatura epistolar da \u00e9poca. A parca correspond\u00eancia deixada pelo pintor aponta uma rara coer\u00eancia entre o artista e o correspondente, uma rela\u00e7\u00e3o direta entre obra e carta. Convidamos o leitor, ent\u00e3o, a investigar esse caso do pintor que uma vez quis ser marinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<\/p>\n<h2>Cartas de Manet<\/h2>\n<p><em>Jorge Coli<\/em><\/p>\n<p>As cartas que \u00c9douard Manet deixou s\u00e3o breves e poucas. Na maioria das vezes, apenas bilhetes ou quase. A edi\u00e7\u00e3o de sua correspond\u00eancia com Zola foi feita no cat\u00e1logo da mostra retrospectiva que comemorou, em 1983, o centen\u00e1rio de sua morte. Em plena efervesc\u00eancia criadora, em pleno momento de renova\u00e7\u00e3o das artes, poder-se-ia esperar, entre o escritor que se bateu pelas vanguardas e o primeiro dos pintores francamente modernos, amigos ambos, um correio apaixonante pelas reflex\u00f5es est\u00e9ticas que contivesse ou pelos epis\u00f3dios que esclarecesse. Nada disso. Eis, por exemplo, a resposta aos artigos de Zola, publicados em 1866, sobre o pr\u00f3prio Manet e a nova arte, artigos de enorme repercuss\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Caro senhor Zola,<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o sei onde encontr\u00e1-lo para apertar-lhe a m\u00e3o e dizer-lhe o quanto estou feliz e orgulhoso por ter sido defendido por um homem de seu talento! Que belo artigo! Mil vezes obrigado.<br \/>\n<\/em><em>Seu pen\u00faltimo artigo (\u201cO momento art\u00edstico\u201d) era dos mais not\u00e1veis e causou grande efeito. Quero pedir-lhe uma opini\u00e3o. Onde poderia encontr\u00e1-lo? Se isto lhe convier, estou todos os dias no Caf\u00e9 de Bade, das cinco e meia \u00e0s sete horas.<br \/>\n<\/em><em>At\u00e9 breve, caro senhor. Queira, rogo-lhe, aceitar os protestos de minha viva simpatia e acreditar-me seu obrigado e reconhecido.<\/em><\/p>\n<p><em>Manet <\/em>(1)<\/p>\n<p>E se quisermos saber o que o pintor pensava dos romances de Zola temos<br \/>\nde nos contentar com:<\/p>\n<p><em>Meu caro amigo,<\/em><br \/>\n<em>Acabei de terminar Th\u00e9r\u00e8se Raquin e envio-lhe todos os meus cumprimentos. \u00c9 um romance muito bem feito e muito interessante.<\/em><\/p>\n<p><em>Seu<\/em><br \/>\n<em>Manet <\/em>(2)<\/p>\n<p>Como o s\u00e9culo XIX nos habituou aos grandes derramamentos da alma em cartas e di\u00e1rios, testemunhos t\u00e3o parcos nos deixam decepcionados. Mas, se pensarmos no personagem e no artista Manet, essa economia nas confid\u00eancias e nas manifesta\u00e7\u00f5es do pensamento aparece como perfeitamente adequada. H\u00e1 uma justa coer\u00eancia entre o ser Manet, sua arte e seus escritos. Ela se encontra no extremo oposto de um clima emocional que lhe era contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Tomemos Van Gogh, neste caso, o ant\u00edpoda. H\u00e1 constantemente nele um estado de excita\u00e7\u00e3o nervosa, at\u00e9 certo ponto cultivada, e cultivada fisicamente, pelas prova\u00e7\u00f5es a que submete seu corpo, com jejuns, bebedeiras, sono parco, e que interv\u00e9m na mente rica de projetos exaltados, na percep\u00e7\u00e3o do mundo. Como se sabe, al\u00e9m de sua genial pintura, Van Gogh deixou o testemunho de um dos mais prodigiosos mergulhos introspectivos gra\u00e7as a suas in\u00fameras cartas, que a edi\u00e7\u00e3o de Georges Charensol enfeixou em tr\u00eas maci\u00e7os volumes de mais de seiscentas p\u00e1ginas cada um. Percurso angustiado, nas orlas da loucura e da morte, sua leitura nos envolve como a de um grande romance.<br \/>\nPorque existe nele o que seria poss\u00edvel chamar de uma ret\u00f3rica de vida. Em Van Gogh h\u00e1 o desespero dilacerado diante da \u201cverdadeira vida\u201d \u2014 para empregar sua pr\u00f3pria express\u00e3o \u2014, desespero causado por sua absoluta dificuldade de inser\u00e7\u00e3o no universo contempor\u00e2neo. Uma dificuldade que se encontra tamb\u00e9m num Baudelaire, formulada pelo poeta quase como um arqu\u00e9tipo: observa\u00e7\u00e3o sobreaguda do mundo, estimulada pelos estados f\u00edsicos abalados \u2014 o estado f\u00edsico, por exemplo, do \u201cHomem da multid\u00e3o\u201d de Poe. Mais ainda, o \u201cgrande romance\u201d das cartas de Van Gogh, supremamente tr\u00e1gico por delinear a trajet\u00f3ria de uma exist\u00eancia real, apresenta uma equival\u00eancia liter\u00e1ria espantosa com a obra de Dostoi\u00e9vski. Baudelaire, Poe, Van Gogh e Raskolnikof compartilham, em v\u00e1rios aspectos, de uma mesma natureza.<\/p>\n<p>Tal ret\u00f3rica da interioridade tr\u00e1gica \u2014 exacerba\u00e7\u00e3o da heran\u00e7a rom\u00e2ntica que traz a insuport\u00e1vel dificuldade de ser diante do mundo \u201cburgu\u00eas\u201d \u2014 passa pela imagina\u00e7\u00e3o e pela exist\u00eancia, pela arte e pelo vivido, leva ao crime fict\u00edcio e ao suic\u00eddio verdadeiro. Leva tamb\u00e9m aos comportamentos confessionais plet\u00f3ricos, testemunhos que se configuram como o lugar natural dessa mesma ret\u00f3rica. Ret\u00f3rica possuidora de uma efic\u00e1cia a tal ponto poderosa, que convence o mundo, mas ainda seu pr\u00f3prio autor, numa rela\u00e7\u00e3o cuja forma e subst\u00e2ncia se tornam organicamente as mesmas.<\/p>\n<p>Haveria muito o que dizer a respeito desse modo de ser e de sentir \u2014 basta-nos aqui notar que Manet se encontra fora dele. Sua arte \u00e9 a da ret\u00f3rica perdida \u2014 ele \u201ctomou a eloqu\u00eancia e torceu-lhe o pesco\u00e7o\u201d, para lembrarmos Bataille, numa frase a respeito de um de seus quadros. Mas em Manet, eloqu\u00eancia n\u00e3o se refere apenas aos lugares-comuns das tradi\u00e7\u00f5es da cultura; significa o esvaziamento das rela\u00e7\u00f5es sentimentais com o mundo, sejam elas profundas, poderosas, violentas, ou epid\u00e9rmicas, afetadas, exteriores. Isto se constata tanto em sua vida quanto em sua obra.<br \/>\nAs descri\u00e7\u00f5es que dele possu\u00edmos, deixadas por seus contempor\u00e2neos, s\u00e3o todas concordantes. Manet era \u201cencantador\u201d, elegante, amabil\u00edssimo, alegre. Parisiense da gema, abominava a natureza: seu meio era a metr\u00f3pole cosmopolita, onde se introduzia sem afeta\u00e7\u00f5es de mundanidade, mas com a perfeita corre\u00e7\u00e3o do homem bem-educado. Um grande cuidado no vestir-se e um bom humor franco, contagiante. Fran\u00e7oise Cachin, no cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o de 1983, lembra que Berthe Morisot gostava de conversar com o Sr. Degas, filosofar com Pavis e rir com Manet\u201d. (3) \u00c9 que o pintor da Ol\u00edmpia tinha tanto horror das emo\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis quanto do pedantismo te\u00f3rico e sapiente das discuss\u00f5es intelectuais. Um seu amigo e contempor\u00e2neo, Jeanniot, conta que ele possu\u00eda uma f\u00f3rmula para desviar todo di\u00e1logo que tendia \u00e0 elucubra\u00e7\u00e3o est\u00e9tica: \u201cA arte \u00e9 um c\u00edrculo\u201d, dizia ent\u00e3o, \u201cou se est\u00e1 dentro, ou se est\u00e1 fora, segundo o acaso do nascimento\u201d. (4)<\/p>\n<p>Compreendemos assim que suas cartas se caracterizam pela parcim\u00f4nia. H\u00e1, por\u00e9m, tr\u00eas momentos de exce\u00e7\u00e3o. Exce\u00e7\u00e3o durante uma viagem \u00e0 Espanha, particularmente num instante de entusiasmo em Madri, diante de Vel\u00e1zquez e Goya, quando escreve, em 1865, a Fantin-Latour. Exce\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m em 1870, quando do cerco de Paris pelos prussianos, nas cartas enviadas \u00e0 sua fam\u00edlia, refugiada nos Pireneus. Manet permanecera na capital, alistando-se como tenente na guarda nacional. As cartas eram transportadas por bal\u00f5es \u2014 meio relativamente incerto, o que fazia aumentar a ansiedade \u2014 e a situa\u00e7\u00e3o dos parisienses era das piores, \u00e0 merc\u00ea da epidemia e da fome.<\/p>\n<p>Essa correspond\u00eancia n\u00e3o disfar\u00e7a os acontecimentos, mas n\u00e3o traz nenhuma dramatiza\u00e7\u00e3o estil\u00edstica: as frases s\u00e3o curtas, as informa\u00e7\u00f5es, precisas, os sentimentos, contidos:<\/p>\n<p><em>Os prussianos perderam, acredito, muita gente; entre n\u00f3s, as perdas foram menos consider\u00e1veis. Entretanto, o pobre Curellier, o amigo de Degas, foi morto. Leroux foi ferido e, creio, feito prisioneiro. Come\u00e7amos a n\u00e3o aguentar mais, estamos fechados e privados de roda comunica\u00e7\u00e3o; pois faz mais de um m\u00eas que n\u00e3o temos not\u00edcias de voc\u00eas&#8230;<\/em><br \/>\n<em>Temos a var\u00edola, que faz estragos, e estamos reduzidos, no momento, a<\/em><br \/>\n<em>75 gramas de carne por pessoa. Tudo isto n\u00e3o \u00e9 nada, quando se pensa no que ainda acontecer\u00e1 [&#8230;].<br \/>\n<\/em><em>Demorei bastante, minha cara Suzanne, procurando sua fotografia. Encontrei enfim o \u00e1lbum na mesa da sala e passo olhar \u00e0s vezes seu rosto bom. Esta noite, acordei acreditando ouvir sua voz que me chamava. Gostaria que chegasse o momento de rev\u00ea-la e o tempo passa para mim, muito lentamente.<\/em> (A sua esposa, as de outubro) (5)<\/p>\n<p>Em meio aos horrores, no entanto, o <em>chic<\/em> parisiense ressurge, numa atitude blas\u00e9 (este in\u00edcio de carta, por exemplo: <em>\u201cQue l\u2019on s\u2019ennuie \u00e0 Paris en ce moment!\u201d<\/em> \u2014 Como nos aborrecemos em Paris neste momento!), numa nota sobre a ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica que diminui ou, inesperadamente, desmontando dramas, um pedido s\u00f3brio:<\/p>\n<p><em>Paris est\u00e1 mortalmente triste. O g\u00e1s come\u00e7a a faltar: ele \u00e9 retirado de todos os estabelecimentos p\u00fablicos. A comida se torna imposs\u00edvel [&#8230;].<\/em><br \/>\n<em>A var\u00edola faz estragos e atinge sobretudo os camponeses refugiados.<\/em><br \/>\n<em>[&#8230;] H\u00e1, agora, em Paris, a\u00e7ougues de gatos, c\u00e3es e ratos. S\u00f3 comemos cavalo, quando podemos obter.<\/em><br \/>\n<em>Gostaria que voc\u00ea me visse com meu grande casaco de artilheiro: vestimenta excelente, indispens\u00e1vel para o servi\u00e7o.<\/em> (\u00c0 sua esposa, 30 de outubro) (6)<\/p>\n<p>O terceiro momento excepcional de sua correspond\u00eancia, onde ela toma novamente corpo e densidade \u2014 terceiro nesta nossa enumera\u00e7\u00e3o, primeiro pela ordem cronol\u00f3gica \u2014 s\u00e3o as cartas que Manet enviou \u00e0 sua fam\u00edlia (\u00e0 m\u00e3e, ao pai, ao irm\u00e3o Eug\u00e8ne, ao primo Dejouy) do Rio de Janeiro. S\u00e3o estas que, aqui, nos interessam particularmente.<br \/>\nEis o epis\u00f3dio. \u00c9douard Manet \u00e9 o filho de um alto funcion\u00e1rio do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, que sonha, para ele, com uma carreira na magistratura. Mas, desde seus tempos de escola, o rebento mostra uma nefasta inclina\u00e7\u00e3o para a pintura. Nisto \u00e9 encorajado por um tio materno, o capit\u00e3o \u00c9douard Fournier. Decididamente sem nenhuma voca\u00e7\u00e3o para a advocacia, prop\u00f5e a seu pai entrar na Escola Naval, mas \u00e9 reprovado no concurso de admiss\u00e3o. Para poder prestar um novo exame, deve fazer uma viagem num navio-escola. \u00c9 assim que embarca, aos dezessete anos, no <em>Havre et Guadeloupe<\/em>, com destino ao Rio de Janeiro, onde permanece aproximadamente durante os meses de fevereiro e mar\u00e7o de 1849. De volta \u00e0 Fran\u00e7a, novo fracasso nos exames e inscri\u00e7\u00e3o no ateli\u00ea de Couture: \u00e9 o in\u00edcio de sua carreira art\u00edstica.<\/p>\n<p>Cinco cartas apenas, que foram cuidadosamente traduzidas e comentadas por Antonio Bento, num trabalho exemplar editado em 1949, por ocasi\u00e3o do centen\u00e1rio da passagem de Manet pelo Rio. Elas apresentam, para n\u00f3s, um duplo interesse, pelo que revelam do futuro pintor e pelo que nos trazem do Rio de Janeiro daquele tempo.<br \/>\nAs cartas mostram, no jovem Manet, o mesmo esp\u00edrito do \u201ccivilizado\u201d metropolitano que manter\u00e1 na idade adulta, para quem o Rio aparece como vagamente pitoresco, certamente bastante b\u00e1rbaro, e que, de modo algum, o inspira. Manet tem horror ao ex\u00f3tico; a fuga do mundo contempor\u00e2neo, comportamento alimentado no s\u00e9culo desde o romantismo, que fez um Delacroix descobrir o norte da \u00c1frica ou um Gauguin ir se instalar na Polin\u00e9sia, lhe \u00e9 perfeitamente estranha:<br \/>\n\u201cAgora que conhe\u00e7o o Rio a fundo, desejo ardentemente rever a Fran\u00e7a e me reencontrar o mais cedo poss\u00edvel entre voc\u00eas\u201d (a Dejoui, 11 de mar\u00e7o). (7)<\/p>\n<p>A secura das observa\u00e7\u00f5es tem algo da descri\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica ou do relato antropol\u00f3gico. Nada de evoca\u00e7\u00f5es literariamente \u201cart\u00edsticas\u201d ou de anota\u00e7\u00f5es picturais. Van Gogh, ao chegar \u00e0 Inglaterra em 1876, antes de se descobrir pintor, revela a prodigiosa sensibilidade de seu olhar atrav\u00e9s da descri\u00e7\u00e3o que se encontra numa carta endere\u00e7ada a seus pais:<\/p>\n<p><em>Na manh\u00e3 seguinte, no trem de Harwich a Londres, foi lindo ver a<\/em><br \/>\n<em>Aurora surgir, os campos negros, os prados verdes com carneiros e seus filhotes e, aqui e ali, uma cerca de espinheiros, alguns grandes carvalhos com troncos cinza e galhos negros. Na manhazinha, o c\u00e9u estava azul, com algumas estrelas ainda, e reinando sobre tudo, no horizonte, uma larga faixa de nuvens cinza. [&#8230;]<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00e1bado \u00e0 tarde, fiquei no tombadilho at\u00e9 que o sol se pusesse. T\u00e3o longe quanto a vista alcan\u00e7ava, a \u00e1gua era de um azul escuro, franco, com aqui e ali altas vagas de cristas brancas.<\/em><\/p>\n<p><em>O c\u00e9u era de um azul p\u00e1lido, liso, sem a menor nuvenzinha.<\/em><\/p>\n<p><em>O sol se p\u00f4s, um \u00faltimo raio fez cintilar a \u00e1gua. (8)<\/em><\/p>\n<p>Compare-se este trecho com as frases de Manet descobrindo a ba\u00eda de Guanabara, ba\u00eda que a maioria esmagadora dos viajantes que visitavam o Brasil proclamava como um dos mais estupendos panoramas do universo:<\/p>\n<p><em>A ba\u00eda de Guanabara \u00e9 encantadora, \u00e9 povoada por navios de guerra de todas as na\u00e7\u00f5es, \u00e9 cercada por montanhas verdes onde se descobrem casas encantadoras.<\/em><\/p>\n<p>Como se v\u00ea nenhum esfor\u00e7o de efeito liter\u00e1rio. Seria muito tentador, mas imposs\u00edvel, aqui, desenvolver um estudo comparado dos diversos relatos que descrevem a chegada ao Rio. A excita\u00e7\u00e3o de deslumbramento p\u00f4de levar tanto \u00e0 boa sinceridade estil\u00edstica de um Ferdinand Denis \u2014 que escreve, em 1837: \u201c [..] se chega ante estas belas rochas de granito, que formam a entrada do Rio, e se avistam suas margens elevadas, carregadas de uma vegeta\u00e7\u00e3o brilhante, t\u00e3o abundante que as fendas dos rochedos se ornam de uma linda verdura, e quando da areia da pr\u00f3pria praia desabrocham grandiosas flores [&#8230;]\u201d (9) \u2014 quanto aos excessos descritivos, mas t\u00e3o envolventes, desse sir Richard Francis Burton, o tradutor ingl\u00eas de <em>As mil e uma noites<\/em>: \u201c[A ba\u00eda] \u00e9 mais encantadora quando se estende sob seu rico dossel et\u00e9reo, enquanto um verniz de atmosfera di\u00e1fana imprime \u00e0s dist\u00e2ncias uma suave e maravilhosa beleza; quando o manto azul \u00e9 de um azul perfeito, brilhante, quando as tonalidades castanhas s\u00e3o riscadas de cor-de-rosa e vermelho e quando as pr\u00f3prias cores nacionais se fazem lembrar: verde, vivo como o da esmeralda, e amarelo, reluzente como ouro brunido\u201d (1867); (10) ou \u00e0 escrita poderosa, c\u00f3smica, an\u00edmica, de Kipling, em 1927:<\/p>\n<p><em>Pode haver \u00e1guas mais belas em algum lugar, mas nem em Sidney, nem em Cape Town, que eu sempre julguei supremas nos seus g\u00eaneros, podem comparar-se com estas em tamanho \u2014 o qual, afinal de contas, n\u00e3o importa muito \u2014 mas em indescrit\u00edvel diversidade, cor, amplitude o mi e esplendor de cen\u00e1rio. Uma serra de montanhas coroadas de nuvens fechava a ba\u00eda de um lado, a cinquenta ou sessenta quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Estavam sem d\u00favida \u00e0 espera de um bom temporal. As montanhas n\u00e3o se cobrem de mantas de nuvens de grande espessura apenas para algumas horas de chuva. Picos furavam a cerra\u00e7\u00e3o, acordavam trovoadas distantes e tornavam a recolher-se. Certas faces gigantescas de penhascos avan\u00e7avam como gado pela n\u00e9voa, olhavam e voltavam para tr\u00e1s do v\u00e9u.\u201d (11)<\/em><\/p>\n<p>A tudo isso, Manet op\u00f5e: \u201cba\u00eda encantadora, montanhas verdes\u201d. A natureza, ali\u00e1s, n\u00e3o lhe interessa em nada. Abomina as chuvas diluvianas dos tr\u00f3picos, morre de medo das cobras \u2014 e ser\u00e1 mesmo picado por um r\u00e9ptil.<br \/>\nQuando come\u00e7a a falar da vegeta\u00e7\u00e3o, emprega alguns adjetivos convencionais e desvia imediatamente para alguma coisa de mais estimulante \u2014 uma farra, por exemplo:<\/p>\n<p><em>Quanto ao campo dos arredores, nada mais belo, nunca vi natureza mais bela; fiz ontem um passeio (partie) com v\u00e1rios solteir\u00f5es numa ilha no min fundo da ba\u00eda, divertimo-nos muito, a moradia onde ficamos durante tr\u00eas dias \u00e9 deliciosa e toda crioula; fizemos uma excurs\u00e3o numa floresta virgem, \u00e9 coisa muito curiosa, salvo as serpentes, que perturbam um se ai pouco o prazer do passeio.<\/em> (A seu primo Jules Dejouy, 11 de mar\u00e7o) (12)<\/p>\n<p>O que atrai Manet \u00e9 a vida urbana do Rio, os seres, as mulheres em particular. N\u00e3o deixa de anotar, sem crueldade, mas imparcialmente, o provincianismo da antiga capital: o pal\u00e1cio do imperador (o Pa\u00e7o Imperial) \u2014 uma \u201c<em>bicoque<\/em>\u201d \u2014 uma baiuca \u2014, \u201cmesquinho\u201d. Para um franc\u00eas, cujas escalas de valores s\u00e3o as grandes moradias aristocr\u00e1ticas de seu pa\u00eds \u2014 como Menars, Champs ou Maisons-Laffite (e isto para n\u00e3o evocarmos as resid\u00eancias reais), as instala\u00e7\u00f5es de nosso monarca deviam mesmo se assemelhar ao dom\u00ednio de um fidalgozinho de prov\u00edncia. A mil\u00edcia nacional \u00e9 \u201c<em>tr\u00e8s comique<\/em>\u201d, o teatro \u201c<em>ennuyeux et b\u00eate<\/em>\u201d [entediante e imbecil]. E, em suas cartas, velhos mitos nacionais se encontram reafirmados:<br \/>\n\u201cos brasileiros s\u00e3o moles, e t\u00eam, creio, pouca energia\u201d; \u201c as mulatas s\u00e3o quase todas lindas\u201d.<\/p>\n<p>Manet n\u00e3o cultiva a ironia bem ou mal-humorada, que alguns viajantes nos deixaram. N\u00e3o possui a observa\u00e7\u00e3o mordente, impiedosa, tantas vezes l\u00facida, no entanto, de um Carl Seidler, que escreve em 1862:<\/p>\n<p><em>O Brasil \u00e9 a terra matriz da natureza e do mundo das fadas, terra da fantasia e da insensatez da anarquia, da especula\u00e7\u00e3o, terra de macacos, frades e mulatos, o estado imperial de um arlequim de traje multicolor, que com sua vara de cond\u00e3o transforma ouro em papel, p\u00e3o em pedra, homens em animais, e que na velha pantomima \u2018Juca, o macaco brasileiro\u2019 mostra sua ascend\u00eancia sobre s\u00faditos quadr\u00fapedes! <\/em>(13)<\/p>\n<p>Nem ir\u00f4nicas, nem exaltadas, nem picturais ou liter\u00e1rias, as cartas de Manet, escritas do Rio, possuem um interesse especial. Elas n\u00e3o s\u00e3o apenas o testemunho breve de um adolescente numa r\u00e1pida aventura tropical, adolescente que depois se tornaria um pintor maior. Nelas, nenhuma ingenuidade. Um olhar interessado antes de tudo pelos seres humanos (como nos mostrar\u00e1 mais tarde sua pintura) e pelas rela\u00e7\u00f5es que esses Seres tecem entre si no meio em que vivem. A paisagem, urbana ou natural, conta pouco; ao contr\u00e1rio, a moda toma lugar de destaque. Manet nunca \u00e9 tentado a aderir afetivamente \u00e0 cultura que descobre: conserva sempre seu lugar \u2014 o da dist\u00e2ncia do estrangeiro, do outro, que observa sem se identificar com o que v\u00ea. Nestas passagens, por exemplo:<\/p>\n<p><em>Nas ruas n\u00e3o se encontram sen\u00e3o negros e negras; os brasileiros pouco saem de casa e as brasileiras ainda menos. Estas s\u00e3o vistas apenas no com momento em que v\u00e3o \u00e0 missa ou \u00e0 tarde, ap\u00f3s o jantar, quando ficam em suas janelas. \u00c9 ent\u00e3o permitido olhar para elas \u00e0 vontade, pois durante o dia, se por acaso se encontram na janela e percebem que est\u00e3o sendo observadas, recolhem-se imediatamente. [&#8230;] Os negros usam habitualmente cal\u00e7as, algumas vezes uma blusa de algod\u00e3o, mas, como escravos, n\u00e3o lhes \u00e9 permitido cal\u00e7ar sapatos. As negras mostram-se, na maioria, nuas da cintura para cima; algumas trazem um pano de seda preso ao pesco\u00e7o e caindo sobre o peito. S\u00e3o geralmente feias. Vi, contudo, algumas bastante bonitas. Vestem-se com muito apuro. Umas trazem turbantes, outras arranjam artisticamente suas carapinhas e quase todas usam saiotes enfeitados com imensos babados.<\/em><\/p>\n<p><em>Quanto \u00e0s brasileiras, s\u00e3o geralmente lindas; t\u00eam olhos e cabelos magnificamente negros. Est\u00e3o todas penteadas \u00e0 moda chinesa e andam nas ruas sem chap\u00e9us. [&#8230;] As mulheres n\u00e3o saem nunca sozinhas, est\u00e3o sempre acompanhadas de sua negra ou seus filhos, pois neste pa\u00eds casam-se aos catorze anos e mesmo antes [&#8230;] No Rio, as brasileiras fazem-se conduzir em palanquins. Existem tamb\u00e9m carros e \u00f4nibus puxados por bestas, pois utiliza-se este animal em vez de cavalo. [&#8230;]<\/em><\/p>\n<p><em>O Carnaval do Rio tem um cunho todo particular. No Domingo gordo, passeei durante o dia pela cidade. As tr\u00eas horas, todas as mulheres brasileiras postam-se em suas portas e em seus balc\u00f5es e atiram em todos os homens que passam bombas de cera de todas as cores, cheias de \u00e1gua e as quais chamam de lim\u00f5es. Tinha os meus bolsos cheios de <\/em><em>lim\u00f5es e respondi da melhor maneira que pude, o que \u00e9 de bom-tom. A batalha dura at\u00e9 as seis horas da tarde; tudo ent\u00e3o volta \u00e0 normalidade, realizando-se um baile \u00e0 fantasia, copiado dos bailes da \u00d3pera, no qual somente brilham os franceses.<\/em> (\u00c0 sua m\u00e3e, 26 de fevereiro) (14)<\/p>\n<p>O olhar de Manet sobre o Rio parece-me encontrar seu equivalente nas imagens de Debret, imagens em que a tradi\u00e7\u00e3o descritiva do enciclopedismo iluminista se afirma gra\u00e7as \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o neocl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>Basta comparar Debret e Rugendas para que fique bem claro o que pretendo dizer. No primeiro, um enquadramento sistematicamente frontal, personagens valorizados pelo tamanho, dividindo o espa\u00e7o com acess\u00f3rios minuciosamente inventariados, dominando a paisagem, seja ela urbana ou natural. Raras s\u00e3o as pranchas como a que representa a Floresta virgem \u00e0s margens do Para\u00edba, onde se percebem pequenos personagens atravessando o rio sobre um tronco imenso em meio \u00e0 desordem da selva. (15) Ela \u00e9 exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A natureza tropical, tremenda, descontrolada, aterradora, ou cuja pac\u00edfica imensid\u00e3o produz no esp\u00edrito uma esp\u00e9cie de percep\u00e7\u00e3o do infinito, \u00e9 no romantismo mais franco de Rugendas que a encontramos, em seus homenzinhos tra\u00e7ados nas perspectivas vastas, no meio da vegeta\u00e7\u00e3o desproporcionada ou nos elementos desencadeados, como os barcos dominados pela veem\u00eancia oce\u00e2nica, que nos revela a Entrada da barra do Rio de Janeiro. Rugendas, ali\u00e1s, desse ponto de vista, n\u00e3o est\u00e1 longe de outros artistas alem\u00e3es que tamb\u00e9m visitaram os tr\u00f3picos, como Hildebrandt ou Ender.<\/p>\n<p>O testemunho de Manet dista, portanto, do esp\u00edrito rom\u00e2ntico, preferindo a descri\u00e7\u00e3o inteligente e medida, serena, interessada no homem, no espet\u00e1culo que este oferece. N\u00e3o abdica \u2014 o que nunca far\u00e1 em sua vida \u2014 de seu estatuto de ser urbano (nos dois sentidos da palavra), civilizado e \u201cmoderno\u201d. Seu contato com o Rio \u2014 quer pelas circunst\u00e2ncias (juventude, viagem indesejada), quer pela \u201cess\u00eancia\u201d de uma configura\u00e7\u00e3o intelectual e sens\u00edvel (a de um esp\u00edrito que sempre se alimentou das contradi\u00e7\u00f5es engendradas pela civiliza\u00e7\u00e3o europeia de seu tempo) \u2014 foi necessariamente superficial e sem posteridade.<\/p>\n<p>O testemunho de suas cartas, no entanto, nos confirma um olhar que vir\u00e1 a se constituir plenamente na obra pictural mais tarde desenvolvida, e oferece um Rio de Janeiro visto atrav\u00e9s desse mesmo olhar que pela primeira vez se manifesta.<\/p>\n<p><i>&#8212;<\/i><\/p>\n<p>(1) Manet, cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o do Grand Palais. Paris: RMN, 1983, p. 520.<br \/>\n(2) <em>Id., ibid.<\/em>, p. 521.<br \/>\n(3) <em>Id., ibid.<\/em>, p. 34.<br \/>\n(4) <em>In<\/em>: Pierre Courthion, <em>Manet racont\u00e9 par lui-m\u00eame et ses amis<\/em>, v. II, P. 230 (Carta de Jeanniot). Lausanne: La Guilde du Livre, 1953.<br \/>\n(5) <em>Id., ibid.<\/em>, pp. 65-66.<br \/>\n(6) <em>Id., ibid.<\/em>, pp. 67-68.<br \/>\n(7) Antonio Bento, <em>Manet no Brasil<\/em>. Rio de Janeiro: Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e Salde, 1949, p.79.<br \/>\n(8) Jorge Coli, <em>Vincent van Gogh<\/em>, a noite estrelada. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1985, p. 48.<br \/>\n(9) Ferdinand Denis, Brasil. S\u00e3o Paulo: USP\/ Itatiaia, 1980, p. 99.<br \/>\n(10) Richard Burton, Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. S\u00e3o Paulo: USP\/Itatiaia, 1967, p. 37.<br \/>\n(11) Rudyard Kipling, Cenas brasileiras. Rio de Janeiro: Record, s.d., pp. 41-42.<br \/>\n(12) Antonio Bento, <em>op. cit.<\/em>, p. 79.<br \/>\n(13) Carl Seidler, Dez anos no Brasil. S\u00e3o Paulo: USP \/ Itatiaia, p. 43.<br \/>\n(14) Antonio Bento, <em>op. cit.<\/em>, pp. 84-85.<br \/>\n(15) O leitor perdoar\u00e1 uma aproxima\u00e7\u00e3o esdr\u00faxula, mas \u00e0 qual n\u00e3o resisto. Esta prancha, representando a floresta e o Para\u00edso, com seu tronco inclinado e min\u00fasculos personagens, possui uma semelhan\u00e7a not\u00e1vel (e surpreendente) com a fotografia de cen\u00e1rios e personagens de uma passagem antol\u00f3gica do <em>King Kong<\/em>, de Cooper e Schoedsak (RKO Radio-Pictures, Hollywood, 1933).<\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No post de hoje, trazemos novidades sobre nosso lan\u00e7amento de setembro: Manet no Rio, compila\u00e7\u00e3o das cartas do ent\u00e3o adolescente \u00c9douard Manet durante sua viagem ao Rio de Janeiro entre 1848-1849. 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