{"id":4586,"date":"2024-04-24T12:39:01","date_gmt":"2024-04-24T15:39:01","guid":{"rendered":"https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/?p=4586"},"modified":"2024-04-24T12:39:01","modified_gmt":"2024-04-24T15:39:01","slug":"o-prazer-do-texto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/o-prazer-do-texto\/","title":{"rendered":"O Prazer do Texto"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-4589\" src=\"https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/blog_ercolano_post21_principal_chamada.jpg\" alt=\"\" width=\"1080\" height=\"650\" srcset=\"https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/blog_ercolano_post21_principal_chamada.jpg 1080w, https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/blog_ercolano_post21_principal_chamada-1024x616.jpg 1024w, https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/blog_ercolano_post21_principal_chamada-768x462.jpg 768w, https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/blog_ercolano_post21_principal_chamada-640x385.jpg 640w, https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/blog_ercolano_post21_principal_chamada-400x241.jpg 400w, https:\/\/ercolano.com.br\/loja\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/blog_ercolano_post21_principal_chamada-600x361.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 1080px) 100vw, 1080px\" \/><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em seu ensaio <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Prazer do Texto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (1973), Roland Barthes apresenta as suas reflex\u00f5es sobre a leitura (e tamb\u00e9m a escrita do texto liter\u00e1rio) em forma de anota\u00e7\u00f5es, investigando suas implica\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas. Na ocasi\u00e3o do Dia Mundial do Livro, selecionamos trechos desse ensaio que tratam do deleite, da frui\u00e7\u00e3o ou mesmo do \u201cgozo\u201d (em franc\u00eas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">jouissance<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">) do texto liter\u00e1rio. Barthes discorre de maneira clara e direta sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o autor de um texto liter\u00e1rio e o leitor e suas experi\u00eancias de leitura, pautadas por expectativas, frui\u00e7\u00f5es ou mesmo frustra\u00e7\u00f5es. Afinal, existem diversos tipos de leitores, desde os que buscam satisfa\u00e7\u00e3o intelectual, na valida\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias ideias no texto liter\u00e1rio, at\u00e9 mesmo aqueles que simplesmente procuram obter est\u00edmulos emocionais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em sua linha editorial, a Editora Ercolano busca um equil\u00edbrio ao selecionar suas publica\u00e7\u00f5es. Pensamos em como os livros podem proporcionar experi\u00eancias de leitura ricas, diversas e, \u00e9 claro, prazerosas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim, evitando interpreta\u00e7\u00f5es exclusivamente psicanal\u00edticas, filos\u00f3ficas ou da teoria da literatura, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O Prazer do Texto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 um convite \u00e0 reflex\u00e3o sobre essas sensa\u00e7\u00f5es no processo de leitura. Que o leitor desfrute, ent\u00e3o, do trecho de Barthes que reproduzimos abaixo, na tradu\u00e7\u00e3o admir\u00e1vel de Jaime Guinzburg.<\/span><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">O lugar mais er\u00f3tico de um corpo n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 onde o vestu\u00e1rio se entreabre? Na pervers\u00e3o (que \u00e9 o regime do prazer textual) n\u00e3o h\u00e1 \u201czonas er\u00f3genas\u201d (express\u00e3o ali\u00e1s bastante importuna); \u00e9 a intermit\u00eancia, como o disse muito bem a psican\u00e1lise, que \u00e9 er\u00f3tica: a da pele que cintila entre duas pe\u00e7as (as cal\u00e7as e a malha), entre duas bordas (a camisa entreaberta, a luva e a manga); \u00e9 essa cintila\u00e7\u00e3o mesma que seduz, ou ainda: a encena\u00e7\u00e3o de um aparecimento-desaparecimento.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o se trata do prazer do strip-tease corporal ou do suspense narrativo. Em ambos os casos, n\u00e3o h\u00e1 rasg\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 margens; h\u00e1 uma revela\u00e7\u00e3o progressiva: toda a excita\u00e7\u00e3o se refugia na esperan\u00e7a de ver o sexo (sonho de colegial) ou de conhecer o fim da hist\u00f3ria (satisfa\u00e7\u00e3o romanesca). Paradoxalmente (visto que \u00e9 de consumo de massas), \u00e9 um prazer bem mais intelectual do que o outro: prazer edipiano (desnudar, saber, conhecer a origem e o fim), se \u00e9 verdade que todo relato (toda revela\u00e7\u00e3o da verdade) \u00e9 uma encena\u00e7\u00e3o do Pai (ausente, oculto ou hipostasiado) \u2013 o que explicaria a solidariedade das formas narrativas, das estruturas familiares e das proibi\u00e7\u00f5es de nudez, todas reunidas, entre n\u00f3s, no mito de No\u00e9 coberto pelos filhos.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, a narrativa mais cl\u00e1ssica (um romance de Zola, de Balzac, de Dickens, de Tolstoi) traz em si mesma uma esp\u00e9cie de mimese enfraquecida: n\u00e3o lemos tudo com a mesma intensidade de leitura; um ritmo se estabelece, desenvolto, pouco respeitoso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 integridade do texto; a pr\u00f3pria avidez do conhecimento nos leva a sobrevoar ou a passar por cima de certas passagens (pressentidas como \u201caborrecidas\u201d) para encontrarmos o mais depressa poss\u00edvel os pontos picantes da anedota (que s\u00e3o sempre suas articula\u00e7\u00f5es \u2013 o que faz avan\u00e7ar a revela\u00e7\u00e3o do enigma ou do destino): saltamos impunemente (ningu\u00e9m nos v\u00ea) as descri\u00e7\u00f5es, as explica\u00e7\u00f5es, as considera\u00e7\u00f5es, as conversa\u00e7\u00f5es; tornamo-nos ent\u00e3o semelhantes a um espectador de cabar\u00e9 que subisse ao palco e apressasse o strip-tease da bailarina, tirando-lhe rapidamente as roupas, mas dentro da ordem, isto \u00e9: respeitando, de um lado, e precipitando, de outro, os epis\u00f3dios do rito (qual um padre que engolisse a sua missa). A mimese, fonte ou figura do prazer, p\u00f5e aqui em confronto duas margens prosaicas; ela op\u00f5e o que \u00e9 \u00fatil ao conhecimento do segredo e o que lhe \u00e9 in\u00fatil; \u00e9 uma fenda. surgida de um simples princ\u00edpio de funcionalidade; ela n\u00e3o se produz diretamente a estrutura das linguagens, mas apenas no momento de seu consumo; o autor n\u00e3o pode prev\u00ea-la: ele n\u00e3o pode querer escrever o que n\u00e3o se ler\u00e1. No entanto, \u00e9 o pr\u00f3prio ritmo daquilo que se l\u00ea e do que n\u00e3o se l\u00ea que produz o prazer dos grandes relatos: ter-se-\u00e1 alguma vez lido Proust, Balzac, Guerra e Paz, palavra por palavra? (Felicidade de Proust: de uma leitura a outra, n\u00e3o saltamos nunca as mesmas passagens).\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">O que eu aprecio, num relato, n\u00e3o \u00e9 pois diretamente o seu conte\u00fado, nem mesmo sua estrutura, mas antes as esfoladuras que imponho ao belo envolt\u00f3rio: corro, salto, ergo a cabe\u00e7a, torno a mergulhar. Nada a ver com a profunda rasgadura que o texto da frui\u00e7\u00e3o imprime \u00e0 pr\u00f3pria linguagem, e n\u00e3o \u00e0 simples temporalidade de sua leitura.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Da\u00ed dois regimes de leitura: uma vai direto \u00e0s articula\u00e7\u00f5es da anedota, considera a extens\u00e3o do texto, ignora os jogos de linguagem (se eu leio J\u00falio Verne, avan\u00e7o depressa: perco algo do discurso, e no entanto minha leitura n\u00e3o \u00e9 fascinada por nenhuma perda verbal \u2013 no sentido que esta palavra pode ter em espeleologia); a outra leitura n\u00e3o deixa passar nada; ela pesa, cola-se ao texto, l\u00ea, se se pode assim dizer, com aplica\u00e7\u00e3o e arrebatamento, apreende em cada ponto do texto o ass\u00edndeto que corta as linguagens \u2013 e n\u00e3o a anedota: n\u00e3o \u00e9 a extens\u00e3o (l\u00f3gica) que a cativa, o desfolhamento das verdades, mas o folheado da signific\u00e2ncia; como no jogo da \u201cm\u00e3o quente\u201d, a excita\u00e7\u00e3o, prov\u00e9m, n\u00e3o de uma pressa processiva, mas de uma esp\u00e9cie de charivari vertical (a verticalidade da linguagem e de sua destrui\u00e7\u00e3o); \u00e9 no momento em que cada m\u00e3o (diferente) salta por cima da outra (e n\u00e3o uma depois da outra), que o buraco se produz e arrasta o sujeito do jogo \u2013 o sujeito do texto. Ora, paradoxalmente (a tal ponto a opini\u00e3o cr\u00ea que basta ir depressa para n\u00e3o nos aborrecermos), esta segunda leitura, aplicada (no sentido pr\u00f3prio), \u00e9 a que conv\u00e9m ao texto moderno, ao texto-limite. Leiam lentamente, leiam tudo, de um romance de Zola, o livro lhes cair\u00e1 das m\u00e3os; leiam depressa, por fragmentos, um texto moderno, esse texto torna-se opaco, perempto para o nosso prazer: voc\u00eas querem que ocorra alguma coisa, e n\u00e3o ocorre nada; pois o que ocorre \u00e0 linguagem n\u00e3o ocorre ao discurso: o que \u201cacorre\u201d(1), o que \u201cse vai\u201d, a fenda das duas margens, o interst\u00edcio da frui\u00e7\u00e3o, produz-se no volume das linguagens, na enuncia\u00e7\u00e3o, n\u00e3o na seq\u00fc\u00eancia dos enunciados: n\u00e3o devorar, n\u00e3o engolir, mas pastar, aparar com min\u00facia, redescobrir, para ler esses autores de hoje, o lazer das antigas leituras: sermos leitores aristocr\u00e1ticos.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">* * *<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Se aceito julgar um texto segundo o prazer, n\u00e3o posso ser levado a dizer: este \u00e9 bom, aquele \u00e9 mau. N\u00e3o h\u00e1 quadro de honra, n\u00e3o h\u00e1 cr\u00edtica, pois esta implica sempre um objetivo t\u00e1tico, um uso social e muitas vezes uma cobertura imagin\u00e1ria. N\u00e3o posso dosar, imaginar que o texto seja perfect\u00edvel, que est\u00e1 pronto a entrar num jogo de predicados normativos: \u00e9 demasiado isto, n\u00e3o \u00e9 bastante aquilo; o texto (o mesmo sucede com a voz que canta) s\u00f3 pode me arrancar este ju\u00edzo, de modo algum adjetivo: \u00e9 isso! E mais ainda: \u00e9 isso para mim! Este \u201cpara mim\u201d n\u00e3o \u00e9 nem subjetivo, nem existencial, mas nietzschiano (\u201cno fundo, \u00e9 sempre a mesma quest\u00e3o: O que \u00e9 que \u00e9 para mim?&#8230;\u201d).\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">O brio do texto (sem o qual, em suma, n\u00e3o h\u00e1 texto) seria a sua vontade de frui\u00e7\u00e3o: l\u00e1 onde precisamente ele excede a procura, ultrapassa a tagarelice e atrav\u00e9s do qual tenta transbordar, for\u00e7ar o embargo dos adjetivos \u2013 que s\u00e3o essas portas da linguagem por onde o ideol\u00f3gico e o imagin\u00e1rio penetram em grandes ondas.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">* * *\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Texto de prazer: aquele que contenta, enche, d\u00e1 euforia; aquele que vem da cultura, n\u00e3o rompe com ela, est\u00e1 21 ligado a uma pr\u00e1tica confort\u00e1vel da leitura. Texto de frui\u00e7\u00e3o: aquele que p\u00f5e em estado de perda, aquele que desconforta (talvez at\u00e9 um certo enfado), faz vacilar as bases hist\u00f3ricas, culturais, psicol\u00f3gicas, do leitor, a consist\u00eancia de seus gostos, de seus valores e de suas lembran\u00e7as, faz entrar em crise sua rela\u00e7\u00e3o com a linguagem.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">Ora, \u00e9 um sujeito anacr\u00f4nico aquele que mant\u00e9m os dois textos em seu campo e em sua m\u00e3o as r\u00e9deas do prazer e da frui\u00e7\u00e3o, pois participa ao mesmo tempo e contraditoriamente do hedonismo profundo de toda cultura (que entra nele pacificamente sob a cobertura de uma arte de viver de que fazem parte os livros antigos) e da destrui\u00e7\u00e3o dessa cultura: ele frui da consist\u00eancia de seu ego (\u00e9 seu prazer) e procura sua perda (\u00e9 a sua frui\u00e7\u00e3o). \u00c9 um sujeito duas vezes clivado, duas vezes perverso.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">In: BARTHES, Roland. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">O prazer do texto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. S\u00e3o Paulo, Editora Perspectiva: 1987, pp. 15-21.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">&#8212;-<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(1) <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">No original <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">arrive<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">. (N. do T.).<\/span><\/i><\/p>\n\n    <div class=\"xs_social_share_widget xs_share_url after_content \t\tmain_content  wslu-style-1 wslu-share-box-shaped wslu-fill-colored wslu-none wslu-share-horizontal wslu-theme-font-no wslu-main_content\">\n\n\t\t\n        <ul>\n\t\t\t        <\/ul>\n    <\/div> \n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em seu ensaio O Prazer do Texto (1973), Roland Barthes apresenta as suas reflex\u00f5es sobre a leitura (e tamb\u00e9m a escrita do texto liter\u00e1rio) em forma de anota\u00e7\u00f5es, investigando suas implica\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas. 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