Top 5 dores de cotovelo que viraram arte
“Ter dor de cotovelo” é uma expressão clássica da língua portuguesa e uma das favoritas dos amantes da sofrência. Utilizado para expressar as dores e ciúmes provenientes de um coração partido, o ditado evoca a famosa cena de alguém sentado em um bar com os cotovelos apoiados na mesa enquanto afoga suas mágoas.
A origem da expressão está intrinsecamente ligada à arte, tendo Lupicínio Rodrigues – sambista e romântico incurável – como seu principal difusor. De qualquer forma, ao longo do tempo, outras dores de cotovelo acabaram resultando em obras de arte que se distinguiram em retratar todo o sofrimento de uma desilusão amorosa. Confira abaixo alguma delas:
Ricardo Domeneck e Maximin

O poeta vencedor do Prêmio Jabuti de Poesia 2024 dedicou vários de seus versos ao seu grande muso responsável pelo seu coração partido, Maximin. O autor, que é quinze anos mais velho do que a sua contraparte amorosa, conheceu Maximin em Berlim, onde reside até hoje. Após o término do relacionamento conturbado, Ricardo escreveu Odes a Maximin (Garupa, 2018), mas é no segundo livro deste universo lírico, Memorando: Maximin, que o poeta nos apresenta, intimamente, sua dor de cotovelo em toda sua complexidade.
“Quanto a Maximin, creio às vezes que até gostasse de mim, ainda que eu o irritasse com minha insegurança e minhas necessidades.”
Memorando: Maximin, pág. 21
Em Memorando: Maximin, Domeneck discorre sobre uma relação pautada pelo interesse, onde o desejo torna-se uma peça em um jogo de influência e manipulação. Tanto nos versos dos poemas quanto na prosa que abre o livro, Ricardo reconta seus encontros com o rapaz, que demandava atenção por onde ia. Este magnetismo é o agente principal para o sentimento que perpetuou com o poeta tempos depois de encerrar sua relação com Maximin: a obsessão, acompanhada de uma boa dose de sofrência.
Nando Reis e Marisa Monte

Dois grandes nomes da música brasileira que viveram um breve relacionamento no começo da década de 90. A cantora e compositora Marisa Monte teve um namoro cheio de idas e vindas com o ex-integrante da banda Titãs, Nando Reis, até encerrarem a relação em 1994.
As razões para o término ainda são um mistério, mas em 1998, juntamente com Samuel Rosa, vocalista da banda Skank, Nando Reis escreveu “Resposta”, canção de grande sucesso que lamenta o fim de um relacionamento e o desejo de ser perdoado. Em um vídeo do Youtube publicado no canal do músico em 2021, Nando comentou sobre a música:
“Eu escrevi a canção a partir da ideia do desmanche de uma relação, do inconformismo do responsável pelo desmanche, talvez arrependido por sua própria malfeitoria, desejoso de superar a sua indelicadeza através de sua comunicação”.
Já do lado da voz feminina dos Tribalistas, há rumores de que sua música “Depois” tenha sido inspirada na relação dos dois, mas essa suposição nunca foi confirmada. Apesar dos pesares, Nando Reis e Marisa Monte continuaram sendo amigos, constantemente elogiando o trabalho um do outro e até mesmo colaborando juntos, como na composição e performance do dueto “Pra Quem Não Vem”.
Natalie Barney e Renée Vivien

Durante a virada do século XIX para o século XX, surgiu uma vibrante comunidade literária em Paris, responsável por acomodar diversas autoras e poetas sáficas. É neste contexto que Natalie Barney e Renée Vivien se conhecem e se apaixonam resultando em um relacionamento ardente e marcado por conflitos.
Barney descreveu o fascínio que sentia por sua cara metade como “ser assombrada pelo desejo da morte” e Vivien como “amor à primeira vista”. Mas, mesmo com toda a poesia da relação, o caso durou apenas um ano e é relembrado até hoje pelo ciúme excessivo e excesso de culpa.
Natalie tinha reputação de infiel contumaz, enquanto que Renée, apesar de leal, nutria um amor por uma outra mulher. Em 1901, as duas terminam o relacionamento, resultando em diversos poemas de ambas as partes.
“That unsuspected danger: faithfulness,
Has linked us strangers, and a something less!
Exchanging vows and other platitudes,
As beggars chained in separate solitudes.
Though jealousy keep live the rotten core,
Lovers that were be lovers nevermore.”
Trecho de Habit, 1920, por Natalie Barney.
Após muitas cartas de Barney implorando por mais uma chance com Vivien, as duas reataram, indo viver na ilha de Lesbos. Entretanto, a reconciliação logo resultou em uma nova dor de cotovelo quando Renée abandonou Natalie para reatar com uma antiga paixão em Paris.
Frida Kahlo e Diego Rivera

Uma das artistas mais influentes da história, Frida Kahlo descreveu ter sofrido dois grandes acidentes em sua vida: o acidente de ônibus que a deixou “destroçada” e o seu casamento com Diego Rivera.
Os dois pintores mexicanos se conheceram no início da carreira de Frida, quando Rivera já possuía um grande renome no mundo da arte. A iniciativa partiu dela, que queria saber a opinião de Diego sobre seus desenhos. Com 22 anos de idade, em 1929, Frida Kahlo finalmente se casa com Diego Rivera, então com 43 anos.
Apesar dos ideais de comunismo e mexicanismo fundamentarem o relacionamento dos dois, os casos extraconjugais de Diego passaram a criar diversos conflitos. Em 1939, após Rivera iniciar uma relação com a irmã de Frida, os dois se divorciaram. É em meio a esse divócio que Frida pinta o que viria a ser um de seus quadros mais famosos: As Duas Fridas.

Na obra, é possível observar dois autorretratos: uma Frida amada por Diego e outra descartada por ele. A primeira, que segura um medalhão com o rosto de Diego, apresenta um coração intacto, enquanto que a segunda, que por sua vez segura um par de tesouras, tem um coração pingando de sangue. As mãos dadas, onde uma Frida segura firmemente a outra, também são um contraste com seu quadro Frida e Diego Rivera, em que, apesar da postura firme de Rivera, ele segura a mão de Frida relaxadamente.

O coração partido de Frida, neste caso visivelmente literal, vai além da dor de cotovelo ao mostrar uma lição valiosa que a pintora aprendeu com o seu casamento: no final das contas, ela só podia contar consigo mesma.
Stevie Nicks e Lindsey Buckingham

Fleetwood Mac foi uma das bandas estadunidenses mais memoráveis dos anos 70, produzindo diversos hits que entraram para a história da música pop. Stevie Nicks, uma das três vocalistas do grupo, e Lindsay Buckingham, o guitarrista, viveram um relacionamento intenso, o que resultou em diversas composições que marcaram sua geração e as futuras.
Os integrantes começaram a namorar em 1973, juntando-se à banda Fleetwood Mac um ano mais tarde. Originalmente, a banda estava interessada apenas em Buckingham, mas o mesmo se recusou a participar se Nicks não se juntasse a ele. Como bons artistas e sofredores da dor de cotovelo, ambos começaram a escrever músicas um para o outro, enquanto compartilhavam o palco e cantavam suas letras na frente de milhares de pessoas.
Lindsey foi responsável por “Go Your Own Way”, onde fala sobre a decisão de Nicks de terminar o relacionamento, dizendo “Você só quer arrumar as malas e transar.” Enfurecida e magoada, Stevie Nicks escreveu “Silver Springs”, uma das músicas mais famosas do grupo. Em uma entrevista em 1997, a vocalista disse que a canção era sobre a seguinte mensagem:
“Eu estou tão brava com você. Você vai me ouvir no rádio pelo resto da sua vida, e isso vai te incomodar. Eu espero que te incomode.”
De qualquer forma, os dois continuaram compondo e se apresentando juntos enquanto membros do Fleetwood Mac. Anos após o término, em um evento de reunião da banda, os dois cantaram “Silver Springs” mais uma vez, em uma performance que é lembrada até hoje pelo contato visual do ex-casal, enquanto a esposa de Buckingham assistia da plateia. Seja como casal, ex ou colegas de banda, Stevie Nicks e Lindsey Buckingham encontram na música uma conversa que não existe fora dela. Como disse Nicks:
“Quando estamos lá [no palco] cantando um para o outro, provavelmente dizemos mais um para o outro do que jamais diríamos na vida real.”
Performance de “Silver Springs” em 1997
Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.