Um panorama da poesia ao longo do tempo

De Dante Alighieri a Rupi Kaur, a poesia é um gênero literário capaz de transcender o tempo e a própria linguagem, sendo uma das formas de expressão literária mais eficazes para retratar a sociedade e a cultura de uma época. Ao longo dos séculos, sua estrutura e formato evoluíram junto com seus poetas, tornando-se um legado do desejo e das angústias inerentes ao ser humano. Neste artigo, exploramos a importância de se conectar com a lírica poética, principalmente em tempos marcados pela brevidade e superficialidade das interações sociais.  

 

Por que fazemos poesia? 

Ao longo da história, a poesia se manteve um pilar atemporal e atuou como testemunha do rebuliço dos sentimentos humanos. Nossa vocação poética pode ser explicada pelo desejo intrínseco que temos de narrar e de nos expressar através da arte. 

A poesia funciona como um mural de possibilidades futuras, mas, antes disso, ela apresenta um registro da época em que o poeta viveu. Ela serve como arquivo histórico e apresenta um recorte íntimo sobre as pessoas e seu tempo. 

Por ser produzido por almas extremamente sensíveis, o encanto desse gênero literário encontra-se na capacidade do poeta de transformar sentimentos na linguagem. 

É por meio desta linguagem, também, que somos transportados para momentos lendários e imaginamos futuros. A língua é algo vivo, ela carrega a história e cultura de um povo, se adapta ao modo em que vivemos, encontrando novas maneiras de se inserir em nossa rotina. 

 

A poesia através da história

O primeiro poema

 

Tábuas onde foi escrito o poema de Gilgamesh / Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0

O primeiro registro poético de que temos notícia é encontrado no poema épico Gilgamesh, escrito cerca de 2100 a.C. Resumindo bem, a história, que foi registrada em tábuas de argila após 800 anos da sua tradição oral, conta a aventura de dois heróis que iniciam uma jornada ao longo de diversos países para derrotar um monstro. Os heróis são: o rei Gilgamesh e o amigo/rival Enkidu.

A epopeia é sempre lembrada pela sua narrativa de relações inesperadas e o amor presentes nesses relacionamentos através de versos sobre a solidão e o luto que ainda ecoam milênios depois. 

 

“Somente os deuses habitam para sempre a luz do sol” 

Gilgamesh, após lamentar por sete dias a morte de Enkidu. 

 

A poesia grega

 

A Ilíada de Homero / Imagem extraída da página 265 do volume 4 da Ilíada de Homero. Traduzida por Mr. Pope, de Homero. Original pertencente e digitalizado pela Biblioteca Britânica

É impossível falar de poesia sem falar de Homero, autor dos poemas épicos A Ilíada e A Odisseia. Ambos os poemas foram concebidos há mais de 2500 anos. A Ilíada apresenta a Guerra de Tróia e seus trágicos heróis, como Aquiles, por exemplo. Já A Odisseia acompanha o herói Ulisses na sua jornada de 20 anos para voltar para casa. 

Os versos de Homero são sobre a aventura humana e serviram de base para diversas obras da modernidade. São histórias que podem ser facilmente reconhecidas, com personagens que se comportam de uma maneira universal, com dilemas que qualquer pessoa é capaz de compreender. Mesmo depois de tanto tempo, essas obras ainda continuam arrebatando muita gente. 

 

“Como as gerações de folhas, assim são as vidas dos homens mortais
Ora o vento espalha as folhas velhas pela terra, ora a madeira viva irrompe com os novos brotos e a primavera retorna
E o mesmo acontece com os homens: enquanto uma geração nasce, outra,
desaparece”

A Ilíada, livro VI, traduzido por Frederico Lourenço.

 

A poesia da Idade Média

 

Dante Alighieri com Florença e os Reinos da Divina Comédia, de Domenico di Michelino, 1465 / Creative Commons Attribution-Share Alike 3.0

Um dos melhores exemplos da conexão entre poesia, religião e a política talvez seja a famosa “Idade das Trevas”. Entre 400 e 1000 A.C., após a queda de Roma, a Europa se encontrou em um período extremamente instável, o que, consequentemente, fez com que a arte e a literatura refletissem questões ligadas à sobrevivência.  

Não há muitos registros poéticos desses primeiros séculos da Idade Média, mas o que é hoje considerado o primeiro projeto literário significativo da língua inglesa sobreviveu à escuridão deste período. Beowulf narra a jornada de um herói que derrota o monstro Grendel, enfrenta a vingança da mãe dele e, já idoso, encara um dragão em sua última batalha.

A virada de chave dessa era aconteceu após Guilherme I invadir a Inglaterra, o que desencadeou uma série de mudanças políticas. É dentro desse cenário que a literatura e a poesia voltam a se fortalecer. 

O início do trovadorismo foi responsável por diversos poemas atemporais, sejam eles românticos ou irônicos. É nessa época também que nascem importantes obras clássicas da literatura, como A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e O Círculo do Amor, do famoso poeta persa Rumi. No contexto português, destaca-se também a poesia de Gil Vicente. 

 

“Não há tormento mais dorido que recordar o tempo venturoso na desgraça”

A Divina Comédia, traduzido por José Pedro Xavier Pinheiro

 

A poesia no Renascimento

 

O Sonho do Pastor, de Paraíso Perdido, de Henry Fuseli, 1793

A Idade da Razão trouxe para a poesia o uso da sátira. De 1600 a 1785, poetas como Jonathan Swift e Alexander Pope escreveram versos engraçados, mas que criticavam a monarquia recém-restaurada desse período. 

É durante o Renascimento que John Milton escreve uma das mais importantes obras da literatura: Paraíso Perdido, que conta a história da expulsão de Adão e Eva do Jardim do Éden, o que mais tarde iria inspirar muitos outros artistas, como Mary Shelley ao escrever Frankenstein.

 

“Melhor reinar no inferno do que no Céu servir”

Paraíso Perdido, traduzido por Daniel Jonas.

 

A poesia no período Elisabetano

 

William Shakespeare / John Taylor

A poesia dos anos entre 1400 e 1600 foi marcada por um nome: William Shakespeare. Essa era é marcada pela explosão artística originada em Florença e repercutindo pela Europa. 

É neste período que as novas tecnologias passam a impactar cada vez mais diretamente a poesia. A invenção da imprensa fez com que livros fossem produzidos em massa, aumentando sua acessibilidade e diminuindo o controle da Igreja Católica sobre o que era lido e escrito. Poemas como Nenhum homem é uma ilha, de John Donne, são lembrados e estudados até hoje devido a esse avanço tecnológico. 

Durante o período Elisabetano, o principal formato de poesia eram os sonetos, imortalizados pelo grande poeta e escritor William Shakespeare. 

 

“Se em versos imortais te perpetuas.
Enquanto alguém respire e veja e viva,
Viva este poema, e nele sobrevivas.”

Soneto 18, Shakespeare, traduzido por Geraldo Carneiro.

 

A poesia romântica

 

Percy Shelley, de Alfred Clint, 1819 / Amelia Curran

O romantismo, que aconteceu entre 1785 e 1803, surgiu como um movimento contra a lógica e estrutura imposta pelo Renascimento. Os poetas românticos rejeitavam as regras impostas pelo período anterior e compunham versos sobre a natureza ricos em uma linguagem imaginativa. 

Essa época abrigou grandes nomes da poesia, como William Blake e Percy Shelley, mas é durante esse tempo também que a poesia brasileira passa a se desvencilhar da poesia portuguesa. 

A poesia nacional tem início com José de Anchieta, jesuíta das Canárias, que, segundo a tradição, escreveu milhares de versos latinos dedicados à Virgem nas areias de Iperoig, atual Ubatuba. Desde então, a poesia tornou-se um dos gêneros centrais da literatura brasileira, marcada por rimas, metáforas e imagens, atravessando diversas escolas até o pós-modernismo no século XX. 

 

“Eu saí a indagar, num nevoso dia,
Se comigo a neve nova brincaria:
Brincamos, e ela derreteu a primor;
O inverno falou em crime — e horror”

Neve Nova, de William Blake, traduzido por Sidnei Schneider.

 

A poesia moderna

 

Fayga Ostrower, Carlos Drummond de Andrade e Marcos André

Sylvia Plath, Robert Frost e Carlos Drummond de Andrade. O modernismo marcou a era de experimentação da poesia. Durante os anos de 1900 e 1945, o mundo estava vivendo uma explosão de inovação. As populações estavam crescendo, as grandes potências globais estavam em guerra e os avanços tecnológicos aconteciam em uma velocidade nunca antes vista.

O realismo da Era Vitoriana foi substituído pelo imaginário vívido dos poetas, que estavam constantemente criando algo novo enquanto debatiam sobre suas próprias identidades. 

 

“Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é o meu coração”

Poema de sete faces, Carlos Drummond de Andrade

 

E a poesia agora? 

A revolução tecnológica proporcionou avanços inimagináveis para a humanidade. Entretanto, o ritmo absurdamente acelerado da atualidade ocasionou um público, cada vez maior, que prefere uma linguagem mais mecânica, onde a informação passa a substituir a emoção.

Essa estrutura, alimentada pelos meios digitais, aparenta colocar as artes e humanidades em segundo plano, mas, surpreendentemente, as redes sociais criaram um novo lugar para poetas expressarem suas ideias e a poesia tomar o seu lugar neste mundo hiperdigital. 

O professor da Universidade de Toronto, Adam Hammond, em seu livro Literatura na Era Digital: Uma Introdução, afirma: “Se o mundo digital está matando a literatura como a conhecemos, então ele nos apresenta uma grande oportunidade para reavaliar e redefinir a literatura.”

O reaparecimento da poesia na era digital diz respeito não apenas a como consumimos literatura, mas a como contamos nossas histórias. Conteúdos mais curtos carregam uma extrema importância em nossas interações digitais, mas essa preferência liberta o leitor e o poeta de narrativas longas e cria uma curadoria de poemas que carregam a emoção dessas histórias de uma forma mais concisa. 

A democratização da poesia proporcionada pelo seu amplo acesso por meio das redes sociais cria um ambiente convidativo para uma geração que busca se desprender da contínua performance encontrada nestes meios. A poesia, assim, oferece não apenas uma nova visão de mundo, mas um viés para a exploração de sua identidade, uma saída da pressão constante de se explicar ou performar; um lugar em que a vulnerabilidade e imperfeições são acolhidas ao invés de escondidas. 

A evolução humana trouxe consigo diferentes formas de poesia, sejam a poesia épica dos gregos e romanos, o trovadorismo da Idade Média ou o imaginativo do Romantismo. De qualquer forma, a poesia foi e pode ser usada como ferramenta política, religiosa e econômica, mas a ressonância dentro das vidas de poetas e leitores se dá pela construção de uma nova lente pela qual enxergamos o mundo – não apenas como ele é, mas o que ele pode ser. 

 

Poesia contemporânea para ficar de olho

Agora que já passamos por diversas expressões poéticas, separamos dois exemplos de poesia contemporânea  que você precisa conhecer. 

Memorando: Maximin, de Ricardo Domeneck

 

Ricardo Domeneck, vencedor do Prêmio Jabuti e do Prêmio Alphonsus de Guimaraens em 2024, ambos na categoria “poesia”, retorna ao universo lírico que o consagrou em Odes a Maximin (Garupa, 2018)

Dos clubes noturnos gays à penumbra dos quartos em Berlim, o leitor é convidado a descobrir a figura sedutora de Maximin. Domeneck explora com lirismo e desejo um erotismo que transita entre o melodrama e a austeridade, sempre presentes nesta tensa e fascinante relação entre o “velhote” e o “novinho”.

 

Homem com homem – poesia homoerótica brasileira no século XXI

 

Com mais de 130 poemas de poesia homoerótica brasileira publicados nos últimos 25 anos, esta coletânea reúne diversos poetas brasileiros que desafiam paradigmas e rompem com as marcas de vergonha e receio de um passado recente, quando assumir a orientação sexual e escrever sem disfarces ou em segredo era um ato arriscado.  

De diferentes estilos, os poemas jogam com as palavras, subvertem a sintaxe e exploram imagens, ritmos e musicalidades para expor ao leitor a união e o desejo carnal.

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